sexta-feira, 27 de maio de 2016

RESTITUI SENHOR


Quando vejo uma igreja iniciar o que chamam de “campanha” com o título “Restitui Senhor” tenho frio na barriga. É um dos títulos da moda, uma das palavras de ordem dos crentes de hoje: restituição. É que a diferença sutil entre o verdadeiro evangelho e a farsa de satanás numa frase destas é muito tênue. A boa intenção, num caso desses transforma-se rapidamente em desvio da verdade.
Acho que a diferença pode se perceber quando se diferencia bem a intenção por trás da palavra “restitui”. Tenho visto muitos cristãos desejarem que Deus restitua, em suas vidas particulares, as economias perdidas (muitas vezes por falta de fidelidade ou de boa administração de quem as perdeu e não é capaz de reconhecer um erro, buscando em Deus a correção do mesmo). Às vezes alguns desejam que Deus restitua os milagres que tenham visto outrora acontecerem na igreja. Quando me converti, tinha acabado de acontecer a onda dos dentes de ouro na igreja e muitos ainda falavam sobre isso, querendo que voltasse esses milagres. Muitos pedem restituição de posição econômica ou social, assim como os próprios discípulos pediram para Jesus com relação à própria nação de Israel: “quando, Senhor, restaurarás a Israel, sua posição e prestígio?” (estou contextualizando), ao que Jesus respondeu não caber a ninguém ali saber, senão ao Pai, que determina os tempos. E completou de uma forma incrível esta pergunta dos apóstolos: “mas a vocês cabem receber o PODER do Espírito para serem minhas testemunhas, em Jerusalém, Samaria, Judeia e até os confins da terra” (Atos 1: 6-8).
Interessante, quando Jesus falava sobre poder do Espírito, tinha o objetivo de testemunhar sobre Jesus em todos os lugares. Era o ide. Poder referia-se à coragem de falar de Jesus, num mundo (o Império romano daquela época) onde dizer que servia outro Senhor além do imperador romano seria considerado crime de traição, com pena de morte. Hoje muitos chegam a dizer que ficar todo arrepiado, ou girando em cima de um púlpito ou se debatendo todo é o que evidencia a presença do poder do Espírito. Quero ver os mesmos que se debatem por aí terem a coragem de ir a um lugar ermo de sua cidade, anunciar Jesus para jovens drogados (falo do que eu vivo), no poder da ousadia do Espírito Santo. Pelo contrário, muitos desses têm é muitas desculpas para não ir. Muitos sequer têm coragem de incentivar, ou de apoiar financeiramente ou com oração o trabalho missionário de alguém que vai a algum desses lugares. E ainda estes mesmos têm a petulância de dizer que poder do Espírito é arrepio no braço. São meninos, que ainda bebem leite espiritual e não podem ser alimentados com alimento sólido.
Que Deus restitua, em Sua igreja, o poder do Espírito e muitos possam andar no meio dos perdidos, anunciando Jesus. Que muitos tenham o poder para anunciar Jesus onde ninguém mais quer ir: no meio da pobreza, entre os doentes da alma, entre os viciados. Restitui Senhor, dá do teu poder e tira o comodismo do teu povo.
Certa vez, ouvi de um pastor dizer que tem certos tipos de pessoas difíceis que o diabo envia para a igreja a fim de atrapalhar. Eu lembro da situação e conheço os personagens envolvidos. Não eram grupos de satanistas, enviados para infiltrar trabalhos satânicos na igreja (o que eu também já vi acontecer). Naquela ocasião, aquele pastor se referia a pessoas difíceis, feridas e maltratadas pela vida, difíceis de lidar. Mas era mais fácil para aquele “pastor” se referir a elas como pessoas enviadas por satanás do que admitir sua incapacidade, como pastor, de ajudar aquelas pessoas, pedindo a misericórdia de Deus para isso.
Gostaria que esse pastor (e outros que assim agem, já que não são poucos), fizessem uma campanha para que Deus restituísse na igreja e em suas vidas o amor pelas almas perdidas, que Deus restitua a unção presente em Salomão, de sabedoria, para ajudar uma pessoa com dificuldade, que Deus restitua na vida de alguém assim o verdadeiro temor do Senhor, e não incorra no perigoso erro de atribuir ao inimigo uma obra do Espírito, já que é o Espírito que envia uma pessoa necessitada de amor à igreja, a fim de ser amada. E o Espírito envia por misericórdia, porque a igreja não está fazendo o seu papel de ir buscar este para o Reino de Deus. Jesus mesmo disse que veio para os doentes, não para os sãos (Lucas 5: 31).
Também já ouvi de uma mulher, líder em outra igreja, dizer que estava orando a Deus pedindo que só viesse à igreja pessoas sem problemas. Perdeu a noção do lugar onde está. Deveria ser gerente de um spa. Ou ir cuidar de algum clube de manicures. Mas na igreja não tem como. Se é realmente igreja, será um lugar para receber doentes que venham a ser curados. Que Deus restitua à igreja o poder para sermos embaixadores do Deus que cura, que trata, que alimenta, que acolhe e liberta de verdade.
Restitui, Senhor, a visão a esse pastor cego e surdo, que não sabe o que fala. Isso seria uma boa campanha. Mas tenho visto pastores orarem e pedirem para que Deus restitua e faça voltar para a igreja aquele irmão empresário, com dízimo alto. Mas não quer saber de ir até o irmão, a fim de saber “como vai a tua alma”.
Se uma campanha com título “Restitui” for para pedir a Deus a restituição da unção para chorar pelos pecados, ou o poder de testemunhar de Jesus (lembrando que a palavra grega original para testemunho é martírio), ou se for para restituir o desejo de buscar a Deus com TODAS as forças, de toda a alma, de todo o coração, então é um restituir vindo de Deus. Mas, se estas coisas forem deixadas de lado, a fim de pedir restituição de finanças, de status e outras coisas deste mundo, então eu é que peço: Senhor, restitui a visão a estes cegos.
Lembro-me de quanto chorei, quando Jesus me resgatou, por causa dos meus pecados. Não, eu nunca matei ninguém, nem adulterei, nem tive passado homossexual, nem havia vivido nas drogas.
Mas eu havia ignorado o amor de Deus.
O maior de todos os pecados.
Mas chorei. Chorei muitas vezes e o Espírito me mostrou que eu não poderia continuar ignorando a salvação oferecida por Cristo. Sua obra não poderia ser ignorada por mim, sem sofrer as consequências. O poder do Espírito e o relacionamento com o Pai, restituído em minha vida pela graça de Jesus, me fizeram ver isso. Essa é a verdadeira restituição do Espírito. Lembro-me do dia em que realmente entendi a obra de Jesus, chorando ajoelhado, no chão de uma chácara, ao lado de um amigo, que também passava pela mesma experiência.

Choramos.

Muito.

Os outros já tinham terminado aquele momento de culto e oração e tinham ido embora. Mas nós continuamos ali chorando. Hoje em dia as pessoas dizer estar sentindo “poder” do Espírito e não choram mais pelos próprios pecados. Não choram pelos perdidos. Não sentem mais a dor do mundo, nem a angústia de ver tantas almas se perdendo e indo para o inferno. O máximo que estas pessoas sentem, com este tal poder que dizem ser do espírito é um arrepio nos braços. É vontade de ficar pulando e girando. Eu heim. Restitui Senhor, a verdadeira busca e o verdadeiro reconhecimento da obra do Espírito. Restitui um relacionamento íntimo e profundo contigo, Senhor, através do arrependimento e mudança de atitude. Restitui Senhor.

Veja outro exemplo: conheço um missionário que pediu a certa igreja apoio financeiro, a fim de poder pregar o evangelho, salvar vidas e ir até Judeia, Samaria etc. A igreja disse não ter dinheiro para isso. Não poderia apoiar o trabalho missionário, evangelístico, porque não tinha dinheiro. Seriam aproximadamente 3 mil reais mensais, durante algum tempo, para financiar a obra missionária. A mesma igreja gastara mais de 200 mil em um muro (sim, um MURO), a fim de dar um pouco de conforto a irmãos da igreja. Perdeu completamente o rumo. Perdeu completamente a noção de prioridade do que é o trabalho da igreja. Preferem o conforto de alguns à salvação de outros. Pior: nem sequer ensinam aos seus (os que buscam conforto), que evangelho requer renúncia e amor significa se doar ao próximo. Mas nessa igreja há cegos e surdos ou mudos. Que Deus lhes restitua a visão, a fala, como Jesus fez perante os fariseus (Mateus 12: 22-32) e foi por eles julgado.

Àqueles que ensinam erradamente, que adulteram o evangelho, saibam que um mais duro julgamento os espera (Tiago 3: 1), porque estes que ensinam erradamente, serão os menores no Reino dos céus, conforme Jesus disse (Mateus 5: 19).
Se uma campanha para pedir restituição de Deus for acompanhada de muita contrição e choro, para que todos busquem, verdadeiramente a presença de Deus a fim de fazerem a obra de Deus, então é uma verdadeira campanha em busca de Deus. Mas, como tenho visto em muitos lugares, esse título for apenas uma “jogada de marketing” para atrair pessoas e o fim de tudo for restituir as coisas deste mundo na vida das pessoas, se o objetivo da instituição for arrecadar um dinheiro para fazer um telhado ou uma nova reforma, então pior ainda. Há muitos que perderam o rumo.
Restitui Senhor. Restitui o desejo de deixar tudo para te seguir. Restitui em todos o desejo de buscar a Tua Palavra, como a corça busca por águas, no meio do deserto. Restitui ao teu povo o amor para evangelizar, para orar sem cessar, para ter como objetivo final de vida poder dizer “acabei a carreira, guardei a fé e vivo, não mais eu, mas Cristo vive em mim” (II Timóteo 4: 7; Gálatas 2: 20). Se é Cristo quem vive, a verdade é que a renúncia é total, porque Ele deu a vida por todos.

Mas aos que querem seguir essas campanhas, cuidado! Se a restituição que se pede é para coisas deste mundo, então há uma grande chance de ser um sutil engano de satanás: um sofisma muito bem engendrado, a fim de levar muitos ao engano e à perdição. Muitos perecem por não conhecer a Palavra de Deus. Muitos destes vão perecer dentro das próprias igrejas, pois não conhecem a Palavra de Deus, ainda que estejam dentro das igrejas.
Embora tenha frio na barriga ao ver este tipo de “campanha”, ainda nutro minha esperança. Esperança de que estes se convertam de verdade. Esperança de que os cristãos voltem a sair às ruas e buscar o perdido. Esperança de ter companhia espontânea (e não ter que ficar pedindo e insistindo para isso) que queira ir fazer evangelismo, visitar o doente, o caído, esperança de ver restituído o poder do Espírito na vida da igreja.

O Deus em quem eu tenho crido é poderoso.
Restitui, Senhor.


Pr. Lucas Durigon




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domingo, 15 de novembro de 2015

Princípio das dores




Jesus, na Bíblia, disse que haveriam guerras, catástrofes e muitos sinais dos fins dos tempos. Disse para que não nos assustássemos, pois seriam estes apenas o princípio das dores (Mt 24: 4-9). O Apóstolo Paulo, citando a mesma situação em I Ts 5: 3, cita a expressão “dores de parto”. Em ambos os casos, falando das profecias com relação ao fim dos tempos, das catástrofes que ocorrerão. É como se o processo do fim dos tempos fosse algo como o trabalho de parto de uma mulher.
Ora, uma mulher grávida, quando entra em trabalho de parto, começa a ter as contrações e as dores em tempos espaçados. Primeiro um dia ou outro, depois 1 vez por dia, depois a cada 2 horas... mas o médico diz que só precisa se preocupar quando as contrações (e as dores) passam a acontecer em intervalos regulares de 5 minutos. Muitos casais de primeira viagem vão ao médico algumas vezes quando ocorrem essas dores. Mas são só o princípio. As dores mesmos ficam intensas quando ocorrem a cada 5 minutos. Neste momento, mal dá tempo de respirar e se recuperar da última contração, quando já recomeça outra. Então está quase na hora de dar à luz. Esta metáfora das dores de parto e dar à luz aparecem na Bíblia em I Ts, depois em Apocalipse (12: 2, 4). Creio que o Senhor Jesus está tentando nos mostrar como devemos interpretar os sinais do fim dos tempos.
No caso de uma mulher grávida, quando começam as primeira contrações, quando está no princípio das dores de parto, se for o primeiro filho dela, ela pensa que são dores fortes. Mas ela ainda não conhece as dores quando realmente o bebê está para nascer. Nem conhece também as dores do momento em si de dar à luz. Quando chega realmente o momento e ela sente as dores do momento de dar à luz, então percebe que aquelas primeiras eram apenas o princípio das dores. Ela não sabia ainda, mas viriam dores maiores.
Jesus usa esta metáfora para explicar o fim dos tempos. Mt 24: 5-8 “5Porque virão muitos em meu nome, dizendo: Eu sou o Cristo, e enganarão a muitos. 6E, certamente, ouvireis falar de guerras e rumores de guerras; vede, não vos assusteis, porque é necessário assim acontecer, mas ainda não é o fim. 7Porquanto se levantará nação contra nação, reino contra reino, e haverá fomes e terremotos em vários lugares; 8porém tudo isto é o princípio das dores.” Muitas coisas acontecerão e muitos ficarão assustados com a intensidade e variedade de catástrofes acontecendo. Problemas naturais, sociais, eclesiásticos etc. Guerras, fomes, terremotos. Mas Jesus mesmo disse “não vos assusteis”. Como um médico a falar para uma mulher grávida: “calma, marque o tempo das contrações, só venha o hospital quando elas tiverem um intervalo de 5 minutos de uma para a outra”. Embora todas essas coisas nos deixem espantados, de acordo com Jesus, não deveríamos nos assustar. Seriam apenas o princípio das dores.
Mas Jesus avisou isso tudo para que servisse de sinais para nós. Ao ver isso tudo, poderíamos perceber que a hora estaria chegando. Opa, as contrações estão ficando mais frequentes.
Estamos vendo catástrofes no mundo nos últimos tempos. Catástrofes naturais (terremotos, aquecimento global, tsunamis, aumento da atividade solar com explosões etc.), catástrofes sociais (corrupção, tragédias ocorridas por causa da ganância do ser humano, como o recente rompimento da barragem em Mariana-MG, desigualdade social etc.), catastrofes na igreja (falsos profetas, apostasia, abandono do primeiro amor etc.). Tudo isso estava previsto. Tudo foi previsto por Jesus para que soubéssemos que tudo está sob o controle dele. Mas é tudo o princípio das dores.
Muitas coisas são o princípio das dores. Mas quando começam a ficar de 5 em 5 minutos. Estas últimas semanas vimos muita coisa no noticiário: É tragédia em Mariana-MG, Atentado em Paris, Terremoto no Japão, corrupção, assassinatos e por aí vai.
Chegará um tempo em que os noticiários não darão conta de noticiar tudo adequadamente e já ocorrerá outra catástrofe para noticiar. Antes de terminar de cobrir os assuntos relacionados a uma, virá outra. Como nesta sequência, destas últimas 2 semanas. Está cada vez mais próximo o tempo em que as contrações serão de 5 em 5 minutos. Logo veremos uma tragédia atrás da outra, sem tempo de recuperar o fôlego, como uma mulher que não tem mais tempo de recuperar o fôlego entre uma contração e outra.
Quando chegar este momento, de uma verdadeira dor de parto, aquela que a mulher sente quando está dando à luz, então será como Jesus disse em outra parte: “porque nesse tempo haverá grande tribulação, como desde o princípio do mundo até agora não tem havido e nem haverá jamais.” (Mateus 24: 21). Um sofrimento inigualável. Algo sem precedentes. Então, entenderemos que as guerras e outras catástrofes que vínhamos vendo ultimamente eram apenas o princípio das dores.
Dois outros profetas já haviam dito isto antes: “dia de escuridade e densas trevas, dia de nuvens e negridão! Como a alva por sobre os montes, assim se difunde um povo grande e poderoso, qual desde o tempo antigo nunca houve, nem depois dele haverá pelos anos adiante, de geração em geração.” (Joel 2: 2) e “Nesse tempo, se levantará Miguel, o grande príncipe, o defensor dos filhos do teu povo, e haverá tempo de angústia, qual nunca houve, desde que houve nação até àquele tempo; mas, naquele tempo, será salvo o teu povo, todo aquele que for achado inscrito no livro.” (Daniel 12: 1).
Daí, já não será mais o princípio das dores …


Pr. Lucas Durigon

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sábado, 30 de maio de 2015

A árvore do Éden precisava estar lá?

Se Deus sabia que o homem ia pecar, 
por que colocou a árvore no meio do jardim 
que não podia tocar?



Se Deus já sabia, antes de acontecer, que o homem iria pecar, não teria sido melhor, mais fácil para todos se Ele nem tivesse colocado aquela árvore no meio do jardim? Afinal, se ele não tivesse colocado aquela árvore ali, o homem com certeza não teria como pecar. Por que Deus precisaria “testar o homem”?
Este tipo de pergunta muitos fazem por pensar que a solução para os problemas da humanidade seria não haver cometido aquele primeiro pecado. E, se Deus não tivesse dado alguma coisa que pudesse fazer o homem pecar, então o pecado não existiria e, consequentemente, nada de ruim do que conhecemos na humanidade existiria.
Muitos dizem que Deus “se arriscou” muito ao dar este tipo de teste ao homem.
Mas será mesmo?
Deus disse assim na Bíblia, em Gênesis 2: “7Então, formou o SENHOR Deus ao homem do pó da terra e lhe soprou nas narinas o fôlego de vida, e o homem passou a ser alma vivente. 8E plantou o SENHOR Deus um jardim no Éden, na direção do Oriente, e pôs nele o homem que havia formado. 9Do solo fez o SENHOR Deus brotar toda sorte de árvores agradáveis à vista e boas para alimento; e também a árvore da vida no meio do jardim e a árvore do conhecimento do bem e do mal. … 15Tomou, pois, o SENHOR Deus ao homem e o colocou no jardim do Éden para o cultivar e o guardar. 16E o SENHOR Deus lhe deu esta ordem: De toda árvore do jardim comerás livremente, 17mas da árvore do conhecimento do bem e do mal não comerás; porque, no dia em que dela comeres, certamente morrerás.
Então foi Deus quem fez o jardim, quem fez o homem, colocou ele no meio do jardim. Deu tudo o mais para o homem e o proibiu de apenas 1 coisa: da árvore da ciência do bem e do mal. Além de todas as árvores e tudo o que Deus havia feito para o homem, fez também a árvore da vida. Ou seja, colocou ali a escolha para o homem: a árvore da vida, e a árvore da ciência do bem e do mal, aquela que se o homem comesse do seu fruto, morreria! Pode-se dizer que Deus colocou ali perante o homem uma escolha, entre a vida e a morte (simbolizadas em duas árvores).
Neste momento de Gênesis, Deus já poderia ter dito o que disse em Deuteronômio 30: 19 “Os céus e a terra tomo, hoje, por testemunhas contra ti, que te propus a vida e a morte, a bênção e a maldição; escolhe, pois, a vida, para que vivas, tu e a tua descendência,” Isso que Deus propõe ao homem foi dito em Deuteronômio, depois de dar ao homem a sua lei. Depois de dizer, em detalhes, o que o homem deveria ou não fazer. O que era permitido ou não: por exemplo, não poderia matar. Nem adorar outros deuses. E outras coisas. Em Deuteronômio, Deus propõe claramente uma escolha. Fala de forma explícita. Vida ou morte. E dá um conselho: escolhe a vida. Mas em Gênesis, embora a linguagem, a forma de dizer tenha sido simbólica (na figura de 2 árvores), o que Deus disse foi a mesma coisa: “De toda árvore do jardim comerás livremente, mas da árvore da ciência do bem e do mal, dela não comerás, porque, no dia em que dela comeres, certamente morrerás.
Eu diria até que a opção dada ao homem em Gênesis foi infinitamente mais generosa. Tinha apenas 1 que não podia. Mas todas as outras estavam permitidas ao homem. Inclusive a árvore da vida. Ele só proibiu a árvore da vida ao homem depois de Adão e Eva terem cometido pecado: Gênesis 3: 22-24 “22Então, disse o SENHOR Deus: Eis que o homem se tornou como um de nós, conhecedor do bem e do mal; assim, que não estenda a mão, e tome também da árvore da vida, e coma, e viva eternamente. 23O SENHOR Deus, por isso, o lançou fora do jardim do Éden, a fim de lavrar a terra de que fora tomado. 24E, expulso o homem, colocou querubins ao oriente do jardim do Éden e o refulgir de uma espada que se revolvia, para guardar o caminho da árvore da vida.
Mas mesmo com tantas opções, qual foi justamente a que Adão e Eva escolheram? Foi aquela que não podia. A proibida. Sabemos que a serpente, satanás, levou Eva a comer o fruto, através de mentiras e mostrando aparências. E Eva levou Adão a comer também. Logo após isso, Deus vem em direção ao homem, que se esconde e Deus pergunta a Adão se ele tinha comido do fruto. Isso porque Adão não confessou logo o que tinha feito, quando Deus lhe perguntou onde ele estava.
O fruto proibido representava a Lei de Deus naquele início. Deus não havia enviado os 10 mandamentos, nem dado outras ordens. Apenas 1: não comer do fruto. Era uma orientação clara e simples para que Adão soubesse o que poderia fazer (crescer, multiplicar, comer de todo o resto, desfrutar do jardim do Éden, inclusive da Árvore da Vida etc.) e o que não poderia fazer (comer daquela árvore específica). Se Deus não desse uma lei, não faria sentido limitar o homem em suas atitudes. A limitação, a “cerca” para as atitudes do homem foi colocada antes e avisada. Bastava ao homem respeitar esse limite.
Esta limitação significava dizer que Deus queria manter em ordem as coisas, deixando claro quem é que mandava ali. Deus precisava deixar claro que Ele ainda continuava sendo Deus, mesmo tendo dado tanta liberdade ao homem. Deus queria deixar claro que Ele, o criador, ainda comandava as coisas. E, se é assim, foi justo e bom, da parte de Deus, deixar isso claro. O que não seria justo é ter o poder de mandar (como Deus tem), não avisar ao homem e pegar o homem de surpresa a cada desobediência feita. Imagine que não houvesse aquela proibição, clara e específica. Então o homem começasse a comer alguns frutos. Mas de repente Deus falasse, de supresa: “não Adão. Esse não pode!” e Adão fosse pego de surpresa, largasse assustado o fruto e fosse comer outro. Mas Deus também falasse: “Não, Adão. Esse também não!” Depois da 5ª ou 7ª tentativa, Adão poderia ter dito: “Puxa vida, Deus. Então me diz o que pode e o que não pode!” Adão teria pedido para Deus lhe impor a lei. A regra.
Mas se fosse assim, tudo de surpresa, sem aviso prévio, então o homem poderia se sentir inseguro, sempre se perguntando: “será que esse pode ou não?” Poderia ser que o homem começasse a ter dúvidas, a não querer experimentar nada. Mas Deus não fez isso. Seria sarcástico, da parte de Deus, se tivesse feito assim. Deus deixou claro, logo no início, o que não poderia. E era apenas 1 item. Todo o resto era permitido. Era como se o Senhor dissesse: “Adão, isso não pode. Mas fique à vontade quanto ao resto”. O problema é que o homem desprezou o resto, inclusive a Árvore da Vida. E escolheu justamente o que não podia. Essa tem sido a tendência de escolha do homem a cada dia, de cada homem na face da terra, ao longo de sua história sobre a terra.
Adão poderia se confundir com o Criador. Mesmo depois de ter feito tudo para o homem (o mundo), de ter liberado tudo para o homem (tudo o que havia no jardim), depois de ter dado o domínio ao homem, de dar ao homem a honra de escolher o nome de cada ente da criação, este poderia pensar que podia tudo e que não havia limites para o que intentasse fazer. No episódio da torre de babel, Deus diz em Gênesis 11: 6 “e o SENHOR disse: Eis que o povo é um, e todos têm a mesma linguagem. Isto é apenas o começo; agora não haverá restrição para tudo que intentam fazer.”. Se Deus não tivesse limitado Adão, este poderia pensar que poderia tudo. No futuro, com as pessoas que começaram a construir a Torre de Babel, foi exatamente isso que aconteceu.
Muitos perguntam hoje se pode haver uma moralidade, uma limitação moral, se Deus sequer existisse. Muitos ateus dizem ser possível ter uma atitude moral sem que Deus faça parte disso. Na bíblia, temos alguns exemplos de que deixar o homem livre o torna pecador.
Se Deus não tivesse colocado limites, se não tivesse proibido o homem de comer o fruto proibido, se não tivesse deixado claro quais eram as regras e as punições se fossem desobedecidas, então Deus seria injusto. Teria sido injusto cobrar do homem por algo que o homem nem sabia ser proibido. Mas também possibilitou outro exemplo, para mostrar o que o homem faria se o Senhor não o tivesse limitado.
Vamos imaginar agora se aquel árvore não estivesse ali. Talvez o homem permanecesse um tempo sem pecar. Mas no futuro poderia cometer um pecado, digamos um assassinato como Caim fez com Abel. Então, se Deus resolvesse punir o homem por algo assim, Adão poderia responder: “Ei, Deus, espera um pouco. Quem disse que eu não posso matar alguém? Ninguém nunca me proibiu disso.” Neste caso, se nunca tivesse havido um limite da parte de Deus, deixando claro que se o homem transgredir esse limite ele seria punido, então Adão poderia dizer não ser justo da parte de Deus receber uma punição por algo que ele não sabia, que ele não foi avisado.

Mas permanece a pergunta: Não seria melhor se Deus não tivesse dado nenhum aviso ao homem? Deixasse ele livre para viver? Talvez aí o homem não tivesse cometido pecado nenhum. Alguns podem dizer: “será que não foi o fato de Deus ter falado que não podia que teria despertado a curiosidade no homem?” Alguns querem colocar a culpa em Deus pelo pecado do homem: “foi Deus quem despertou a curiosidade de Adão e Eva quando disse que não podiam tocar no fruto”. Mas, para isso, temos outro exemplo na Bíblia. Depois do pecado ter entrado no mundo através da desobediência, vemos o relato de que Caim matou Abel em Gênesis 4: 8-16. Neste caso, Deus não havia “despertado a curiosidade” de Caim. Nem a serpente veio a ele para lhe influenciar. Mas Caim mesmo, motivado pelo sentimento que nasceu e cresceu em seu coração, matou seu irmão.
E interessante é que Deus, depois do ato de Caim, fez a ele o mesmo tipo de pergunta que tinha feito a Adão: “onde está?” Neste caso, podemos observar que Caim não se escondeu. Mas matou seu irmão e ficou por ali. Deus então perguntou onde estaria Abel? E Caim sequer responde a Deus que estava com medo e havia se escondido. Ele não teve vergonha, medo, nem se escondeu. Ele “encarou” Deus!
O que fez Caim não sentir vergonha de Deus? Ele não havia recebido a advertência de Deus para não fazer o que fez. E, quando o fez, não teve vergonha, medo de Deus nem arrependimento. Teria Caim pensado que, porque Deus não proibiu, então não era proibido?
Temos dois exemplos logo nos primeiros capítulos de Gênesis, mostrando que a tendência do coração do homem é ao pecado, seja influenciado por satanás ou por sua própria concupiscência. No primeiro exemplo, com Adão e Eva, Deus dando uma proibição. No segundo exemplo, com Caim e Abel, sem que Deus tenha feito qualquer advertência. Nos dois casos, o homem se deu ao pecado.

O que Deus queria mostrar? Não teria feito diferença, quanto a cometer pecado, se o homem recebesse ou não uma advertência, uma ordem. O fato é que o pecado sempre fez parte da vida do homem. Ele tende ao pecado, por influência de satanás ou por vontade própria. Deus colocar o fruto ali, no jardim, para dar os limites ao homem, lembrar-lhe quem é que manda e deixar claro que a punição era devido a uma transgressão bem definida foi um ato de amor da parte de Deus. Sem isso, o homem estaria perdido, literalmente sem rumo ou sem saber o que fazer. A árvore no jardim (1 proibida), com tantas outras permitidas, mostra a graça e a misericórdia de um Deus que deseja dar tudo ao homem, só pede obediência e reverência. 
Até hoje é assim.

Pr. Lucas Durigon

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quarta-feira, 29 de abril de 2015

Pedi... Buscai... Batei...



Permita-me tomar o texto “pedi, e dar-se-vos-á; buscai, e encontrareis; batei, e abrir-se-vos-á” de sua citação que ocorre em Mateus 7: 7. Ele é também citado em Lucas, dentro de uma parábola dita por Jesus, mas gostaria de compartilhar a sua citação que ocorre em Mateus.
Veja só. Para entender um texto bíblico, devemos sempre ter em mente o contexto. O que ocorre antes de depois de um determinado texto ser citado. Existe o contexto imediato (texto próximo, mesmo capítulo) e o contexto geral (o livro onde ocorre, a bíblia como um todo). E, temos de lembrar que, ao escrever o texto bíblico, o autor (neste caso Mateus), não a dividiu em capítulos e versículos, muito menos aqueles títulos que as modernas edições da bíblia têm e que já vi alguns pastores desavisados usarem até como definição de pregação.
Para entender um pouco melhor este versículo (Mt 7: 7), precisamos começar em 6: 19, quando começa o trecho que trata deste mesmo assunto e ir até 7: 23. Em Mt 6: 19 começa dizendo “Não ajunteis tesouros na terra, onde a traça e a ferrugem tudo consomem, e onde os ladrões minam e roubam, 20. mas ajuntai tesouros no céu, onde nem a traça nem a ferrugem consomem, e onde os ladrões não minam nem roubam”. Bem, Jesus começa deixando claro que existe uma diferença entre as coisas do céu e as da terra. Existe uma diferença entre o Reino de Deus e o do deste mundo. Mas deixa claro que “onde estiver o vosso tesouro, aí estará também o vosso coração” (vs 21), ou seja, colocamos nosso coração naquilo que damos importância. Talvez no dinheiro, prestígio, posição social ou fama etc. Mas talvez coloquemos no Reino de Deus e a sua justiça, para que as outras coisas (necessidades materiais), nos sejam acrescentadas (vs 33).
A comida, a bebida e as necessidades materiais são buscadas pelos gentios, mas nosso pai sabe que precisamos delas (vs 31-32). Ou seja, não precisamos nos preocupar, inquietar com estas coisas. É consequência natural de uma vida que busca primeiro o reino de Deus.

Mas Jesus continua sua pregação do Sermão do Monte, um pouco dialética neste ponto, fazendo distinção entre o bem e o mal, a luz e as trevas (vs. 23: se teus olhos forem maus, o teu corpo será tenebroso. Se, portanto, a luz que em ti há são trevas, quão grandes serão tais trevas!), entre a porta estreita e a porta larga (vs 13-14), entre a árvore boa e a ruim (vs 16-20), entre os verdadeiros e os falsos profetas. E nos dá sinais e sintomas para reconhecermos o verdadeiro do falso, o bom do ruim, e para escolhermos corretamente, embora deixe à nossa disposição a escolha (podemos escolher o mal, se os nossos olhos quiserem os tesouros desta terra e atentar para isso, e forem trevas).
Então, é bom entender que o contexto deste versículo é todo este trecho: “Pedi e dar-se-vos-á...”, mas se meu olho for mau e eu quiser juntar tesouros nesta terra, que tipo de pedido farei? Ou a quem farei este pedido? Perceba que o versículo 9 diz “e qual dentre vós é o homem que, pedindo-lhe pão o seu filho, lhe dará uma pedra?” e perceba que este versículo é uma clara e direta alusão à tentação de Jesus, quando o diabo lhe ofereceu pedra, a fim de que Jesus usasse seu poder, para transformar em pão. O que o diabo fez? Disse para Jesus: eu tenho pedra, mas se você orar, se se esforçar, se “fizer um voto”, ops, isso não, mas foi quase, ou seja, se você, Jesus, fizer algo, pode pegar esta pedra que estou lhe oferecendo e fazer isso virar em pão. Deixe eu parafrasear: “Você meu irmão, pode pegar este envelope, colocar seu esforço aqui dentro, ops, é sacrifício que o pessoal fala, né, e o que você necessita virá”. Você precisa de pão, mas no fim das contas, lhe é oferecida uma pedra, para que você faça sua parte e a transforme em pão.
No texto de Lucas, isso é dito em forma de insistência, importunação. Tanto que foi pedido o pão para o amigo, que este lhe deu por causa da importunação. Mas espera aí, Jesus não disse um pouco antes, em Mt 6: 7 que não seria por muito falarem, ou por usar repetição, que seria ouvido?
Como agora Ele nos diz que devemos insistir, pedir, bater, até conseguir? Jesus mudou de ideia. Será que Jesus não sabe direito o que está falando? Claro que não é isso.
Na verdade, Este versículo “pedi e dar-se-vos-á, buscai e achareis, batei e abrir-se-vos-á” é um alerta, não uma orientação. Ele não está dizendo que é assim que devemos fazer. Quando Jesus fala de oração, diz que tudo o que pedirmos em nome de Jesus, Ele nos faria (não vou entrar em detalhes sobre o que significa orar “em nome de Jesus”).
Quem se preocupa e se inquieta pelas necessidades materiais? Os gentios. Compare Mt 6, versos 8 com o 32. E o servo de Deus? Busca o Reino.
Então, o que Jesus quer dizer com os versos 7 e 8? É um alerta: Se você pedir, poderá receber. Se buscar, vai encontrar, se bater, lhe será aberta. Tem um ditado que diz “quem procura, acha”, mas o ditado popular refere-se a problemas. Jesus está dizendo que se insistirmos muito em pedir aquilo que Deus já sabe que necessitamos e que virá a nós como consequência de colocarmos o Reino de Deus em primeiro lugar, poderemos correr o risco de não estar pedindo a coisa certa, à pessoa certa.
Mas como saber? Jesus ensina. Ele mostra que o Pai dá boas coisas aos seus filhos. Mas se meu olho for trevas, como saberei enxergar as coisas boas? Se servir a Mamom, aborrecerei a Deus. Se desejar as riquezas, não desejarei “negar-me a mim mesmo”.
Então Jesus está ensinando que devemos saber o que devemos pedir. E o que devemos pedir? O Espírito Santo. O discernimento, o poder e a unção. Para quê? Ficar rodando e pulando na igreja? Ah, vai dormir. Pra ter ousadia de falar a Palavra de Deus, para ter coragem de até morrer por Jesus, se necessário for.
Olha que interessante. Jesus fala de bater e abrir. E usa, nos versos 13-14 a comparação entre a porta estreita e a larga. Tanto numa quanto outra tem pessoas que irão entrar. Ou seja, há pessoas que batem na porta larga. E, cuidado, ela será aberta para quem bate. De tanto a pessoa insistir em caminhar pelos caminhos que não são de Deus, acaba entrando por eles. Cuidado, se você bater, ser-lhe-á aberta a porta. E a porta estreita também. Será aberta a quem bater nela. A quem quiser viver pelos padrões do Reino de Deus, a quem escolher abandonar Mamom. As duas opções estão à disposição. Jesus não está falando apenas de bater na porta boa. Está alertando: cuidado em que porta você bate, porque ao bater, ser-lhe-á aberta. Então, escolha a porta correta.
Depois nos versos 21-23 a ideia de uma porta sendo aberta, e Jesus recebendo as pessoas para entrar (ou não, expulsando aqueles que não conhece). Lembre-se que este trecho que diz que algumas pessoas dirão “Senhor, Senhor!” também é repetido na parábola das dez virgens, em Mateus 25. Novamente, a ideia da porta, e o Senhor abrindo está presente lá. Veja Mt 25: 11. Jesus abriu a porta a quem bateu, mas não deixou entrar.
Jesus nos mostra como é o pai, quando o que precisamos vem dele. Ele não dá pedra no lugar de pão. Provérbios 10:22 “A bênção do SENHOR é que enriquece, e ele não acrescenta dores.” O que vem de Deus é bom, é o que preciso, nem sempre o que eu desejo. Porque pode ser que meu olho ainda esteja em trevas, pode ser que meu coração ainda ajunte tesouros na terra.

O alerta é: meus filhos, saibam que quando o Pai dá, seus critérios e suas prioridades não batem com os critérios e prioridades do mundo, de mamom, das trevas. Então, cuidado ao receberem algo que pediram, porque o fruto demonstra a natureza da árvore. Se o que eu peço glorifica a mamom, por melhor que pareça em minha vida (e não é apenas dinheiro, mas tudo o que leva o homem a se glorificar e não glorificar a Deus), então não é de Deus.


Pr. Lucas Durigon


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terça-feira, 4 de novembro de 2014

Querendo justificar-se

Lucas 10: 25 E eis que certo homem, intérprete da Lei, se levantou com o intuito de pôr Jesus à prova e disse-lhe:Mestre, que farei para herdar a vida eterna? 26  Então, Jesus lhe perguntou: Que está escrito na Lei? Como interpretas? 27  A isto ele respondeu: Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todas as tuas forças e de todo o teu entendimento; e: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. 28  Então, Jesus lhe disse: Respondeste corretamente; faze isto e viverás.29  Ele, porém, querendo justificar-se, perguntou a Jesus: Quem é o meu próximo? 30  Jesus prosseguiu, dizendo: Certo homem descia de Jerusalém para Jericó e veio a cair em mãos de salteadores, os quais, depois de tudo lhe roubarem e lhe causarem muitos ferimentos, retiraram-se, deixando-o semimorto. 31  Casualmente, descia um sacerdote por aquele mesmo caminho e, vendo-o, passou de largo. 32  Semelhantemente, um levita descia por aquele lugar e, vendo-o, também passou de largo. 33  Certo samaritano, que seguia o seu caminho, passou-lhe perto e, vendo-o, compadeceu-se dele. 34  E, chegando-se, pensou-lhe os ferimentos, aplicando-lhes óleo e vinho; e, colocando-o sobre o seu próprio animal, levou-o para uma hospedaria e tratou dele. 35  No dia seguinte, tirou dois denários e os entregou ao hospedeiro, dizendo: Cuida deste homem, e, se alguma coisa gastares a mais, eu to indenizarei quando voltar. 36  Qual destes três te parece ter sido o próximo do homem que caiu nas mãos dos salteadores? 37  Respondeu-lhe o intérprete da Lei: O que usou de misericórdia para com ele. Então, lhe disse: Vai e procede tu de igual modo.





Esta é a descrição da parábola do bom samaritano, contada por Jesus, para explicar e responder a uma questão feita por um doutor da lei. A parábola muitos conhecem: um homem ferido foi ignorado por 2 homens religiosos e auxiliado por um samaritano (povo inimigo dos judeus), o qual foi o seu próximo, naquele momento. Não quero falar hoje da parábola em si, cujo ensinamento é maravilhoso e extraordinário.

Mas quero convidar você a atentar para um detalhe nesta descrição bíblica. O momento que o escritor Lucas, ao descrever a réplica do doutor da lei no verso 29, diz que ele "queria justificar-se". O que será que Lucas queria dizer com isso? O intérprete (ou doutor) da lei queria se justificar do quê? 

Primeiro quero atentar para um detalhe interessante. Naquela época, poucas pessoas tinham condição de escrever. Não apenas porque uma grande parte não sabia escrever, mas porque era muito caro ter um pedaço de papiro e poder escrever. Portanto, o simples fato de saber escrever e cumprir com a tarefa de copiar os textos da bíblia (o trabalho de um escriba) já era suficiente para colocar o escriba numa posição superior à maioria das pessoas, que sequer tinham acesso para ler os textos bíblicos. O fato de um escriba fazer cópias diversas vezes de um texto bíblico durante a vida, fazia com que ele conhecesse os textos bíblicos com mais detalhes. Mas o escriba apenas copiava. 
Um intérprete da lei fazia comentários, explicações, interpretações da lei. Muitos escribas eram intérpretes também. Mas essas interpretações nem sempre eram corretas. E nem sempre aprovadas por Jesus. Claro que toda ajuda para entender melhor a bíblia foi e é até hoje bem vinda. Mas quando o intérprete faz questão que sua explicação bíblica fique acima da própria bíblia, como muitos na época de Jesus queriam, então são reprovados pelo Mestre Senhor Jesus. 
Muitas destas interpretações, ao longo dos anos entre os judeus, tornaram-se em tradições, as chamadas tradição dos homens ou tradição dos anciãos. Jesus as condenou praticamente todas. Principalmente quando estas tradições eram contrárias à Palavra de Deus genuína. Aliás, esta reprova de Jesus a estas tradições e às interpretações dos doutores da lei foi o motivo da pergunta do intérprete da lei neste texto de Lucas 10, quando Jesus conta a parábola do Bom Samaritano. 

Explico: 

O diálogo entre Jesus e o intérprete iniciou com uma pergunta desafiadora por parte do intérprete, feita a Jesus: "que farei para herdar a vida eterna?". Jesus mesmo devolve com outra pergunta, invocando o que a própria Lei (A Palavra de Deus) dizia a respeito, e questiona de volta o intérprete perguntando: "O que a Lei diz?", ou seja, Jesus queria dizer: "não estou aqui para ensinar nenhuma novidade. O que eu vim cumprir já foi dito na lei". Jesus não trouxe nova lei, mas o cumprimento da lei. A resposta direta do intérprete foi: "amar a Deus acima de tudo e ao próximo como a si mesmo" era direta, como está na Palavra de Deus. Jesus também foi direto: "pratique isto e viverás", ou seja, seja cumpridor da Palavra, faça isso em sua vida no seu dia a dia. Tanto pergunta quanto a resposta são muito diretas. 
Amar a Deus e ao próximo: faça isso.
Não é apenas dizer sobre isso, discursar sobre isso, ler ou analisar sobre o amor a Deus e ao próximo. É viver isso. É fazer isso. É praticar isso. 
Mas não para um intérprete da lei. Para um homem desses, a resposta é muito mais complexa. Ele até poderia ter questionado Jesus sobre a verdadeira natureza do amor: o que é amar, na prática? Como faço para demonstrar meu amor ao próximo. Mas ele não estava interessado em obter respostas. Ele queria justificar-se. 

Como assim, justificar-se? Ele queria provar que um intérprete da lei era uma função essencial e totalmente necessária, pois, na opinião dele, não se poderia tratar uma questão destas da forma tão simples e direta como Jesus fazia. A questão implicaria em outras questões. E a questão que o intérprete da Lei fez a Jesus, para justificar-se, foi: "quem é meu próximo?". 
Ele poderia ter perguntado sobre a natureza do amor, sobre sua prática, sobre como demonstrar a Deus nosso amor, já que não podemos ver a Deus, sobre como fazer isso com todas as forças. Mas nada disso parece importar para o intérprete da lei. Para ele, o importante era saber quem era o seu próximo. 
Ou seja, será que um estrangeiro era o próximo? e um inimigo? um parente distante talvez? quem estava, de verdade, dentro da definição de "meu próximo"? na verdade, os intérpretes da época já tinham uma resposta para isso. Uma não. Algumas. Uma verdadeira lista, impossível de decorar, dizendo que esse ou aquele era ou não meu próximo tornavam essa lei de Deus algo variável ao gosto da definição de quem é meu próximo. Ou seja, se devo amar meu próximo como a mim mesmo, mas se um samaritano, por exemplo, não é meu próximo, então não preciso amá-lo. Por isso, muitos intérpretes gastavam muito tempo tentando descobrir quem podia ser considerado como o próximo. Porque, se uma determinada pessoa não vier a ser considerada meu próximo e eu decidir não amá-la, não estarei desobedecendo a lei. 

Na verdade, então, se eu perceber que tal pessoa não é meu próximo e resolver não amá-la, então estou ok. Esta era a justificativa do intérprete da lei. Mais do que isso, era como se ele quisesse dizer: "tá vendo, Jesus, esta questão não é tão simples. Não dá para dispensar a necessidade dos intérpretes da lei, porque somos nós, os intérpretes que ajudamos as pessoas a entenderem realmente como cumprir a lei". 

Mas Jesus responde contando uma história. Nesta história, coloca um inimigo do povo judeu para ajudar um judeu machucado, que tinha sido abandonado por um levita e um sacerdote (membros do clero). E o intérprete, vendo a prática da lei num exemplo vívido do dia a dia contado por Jesus, precisa reconhecer que o próximo daquele homem, naquela situação, era o samaritano. E os samaritanos, naquela época, não faziam parte da lista dos intérpretes para alguém próximo de um judeu. Era um inimigo! Mas Jesus o coloca como próximo. 

E agora? Jesus mostra que, na verdade, esta questão é muito mais prática e real do que dezenas de interpretações necessárias. É fazer. Não é ficar teorizando. A teoria é importante, mas apenas quando fornece valor e firmeza para a prática. A teoria do intérprete precisava se transformar em prática. A tentativa dele de se justificar não deu muito certo. Encontrou o Mestre dos mestres pelo caminho e teve de reconhecer que todas suas listas de pessoas que podiam ser consideradas próximas, tinham sido destruídas por Jesus em seu exemplo. 

Glória a Deus. 

Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo.




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